6 de abril de 2007

VI
(O Frio)


Oito graus lá fora, sensação térmica de 3 graus por causa do vento intenso que vem das geleiras da Antártida.

O hotel no alto da montanha está de frente para o vento do mar e a poucos metros da geleira El Martial. Neve eterna, gelo de dez mil anos. É difícil descrever as cores e o céu de Ushuaia. A vegetação quase monocromática e ao mesmo tempo assustadoramente colorida: o vermelho, o amarelo e o verde dão a impressão de ser uma só cor. As pequenas casas com seus telhados de lata parecem brinquedos. A cidade minúscula com menos de 10.000 habitantes funciona como poucas metrópoles. Calefação em qualquer biboca, lan houses em cada esquina, táxis podres mas que atendem aos chamados imediatamente. Muitos táxis na rua. Em qualquer lojinha é possível descarregar cartão de fotos, atualizar seu I-pod, enviar e-mails. Restaurantes perfeitos, vinhos maravilhosos, sabores de outro mundo. Quem já experimentou uma merlusa negra ou uma centolla (king crab) na Patagônia, sabe do que eu estou falando. Sem falar de um dos top 5 chocolates do mundo. "Arrisco dizer que é o melhor".

George saiu do banho e encontrou Lívia com o rosto para fora da janela aberta.

- Ta louca, Lívia? Fecha isso.
- Eu adoro o cheiro do frio. - fechando a janela - que lugar lindo, George. Que bom que a gente veio.
- Frio tem cheiro?
- Tem. De infância. Uma delícia.
Ele sempre ouvia as palavras de Lívia com um sorriso indisfarçável de admiração.
- Então vamos brincar lá fora?
- Oba, vamos.

Os dois pediram um táxi e foram para a orla conhecer a cidade e seus barcos pesqueiros. Encantados, como qualquer turista, andaram a pé pela beira do mar sentindo o vento gelado, foram obrigados a comprar cachecóis e luvas, tiraram fotos e conversaram com moradores do local. George puxou Lívia para dentro de uma loja. Chocolate Lapataia.

- Café?
- Nossa! Estou matando por um.

Pediram seus cafés e Lívia ficou maravilhada com os chocolates expostos na vitrine do balcão. Puxou sua máquina fotográfica e começou a registrar de todos os ângulos aquela variedade de barras artesanais empilhadas. Chamou a atenção da balconista.

- Por favor? Qual deles você acha que é o mais diferente, ou mais típico?
- O chocolate amargo com Calafate.
- Pode me dar um, por favor?

Lívia analisa a barra que lhe foi dada, não reconhece nem de longe o tal calafate. Experimenta e adora.

- O que é calafate?
- É uma fruta silvestre, abundante por aqui.
- Parece com o que?
- Hm... Com calafate. É redonda, pequenina e azul. Algumas pessoas dizem que é blueberrie.
- Não deixa de ser uma "blue berrie" já que é azul e silvestre.
- Sim. Mas o gosto não se parece com o blueberrie americano.
- Muito gostoso. George? Quer um? É com uma fruta típica da região.
- Quero.

A moça da loja sorriu ao ver George provar o chocolate.

- Que bom que vocês estão comendo Calafate.
- Porque? - George perguntou - Tem poderes medicinais?
- Não. Tem poderes mágicos.

Os dois se olharam espantados, tirando rapidamente o chocolate da boca.

- Como assim?
- Calma... É só uma lenda muito antiga.

Os olhos curiosos de Lívia brilharam e ela quis saber sobre a lenda da fruta azul. A bem treinada balconista prontamente começou a contar.

- Dizem que uma velha índia estava muito triste, porque os pássaros que estavam sempre perto de sua casa haviam migrado para outro lugar e não voltaram mais. Quando o inverno acabou, alguns ressurgiram e ela, como era bruxa e conseguia falar com os pássaros, foi perguntar a eles por que demoraram tanto.
Os pássaros explicaram que se ficassem por ali no inverno, quando a neve cobre toda a vegetação, morreriam de fome. Então, a velha índia disse a eles que se prometessem não mais partir, ela mostraria a eles onde havia um alimento maravilhoso e farto. Os pássaros prometeram ficar. A índia então levou os pássaros para conhecer o Calafate que é quase uma praga nesta região. Os pássaros adoraram a fruta e experimentaram um profundo desejo de comê-la sempre. A partir desse dia, alguns pássaros deixaram de migrar. E mesmo quando a neve cobre tudo, eles ficam em volta dos arbustos revolvendo a neve para encontrar o Calafate. Os pássaros que migram, dizem, passaram a comer as frutas que são levadas pelo vento. E sempre voltam para a Patagônia em busca de mais.
Por isso, os índios acreditam que o Calafate é encantado. Quem come esta fruta, volta sempre para cá para comê-la. E o que comprova a lenda, é que no verão, quase todos os pássaros, inclusive o ñandú, que é um pássaro enorme, têm os bicos tingidos de um azul chamativo, que dizem ser por causa do Calafate.

Lívia perguntou sorrindo:

- Então, eu posso entender esta lenda do meu jeito e dizer que se eu comer Calafate junto com ele, ele vai sempre voltar para mim?
- Ou vocês vão ter que se encontrar sempre na Terra do Fogo.
- Ah... Então vou comprar Calafate e escolher um lugar para onde queremos voltar.
- Não! Só vale na Patagônia. Mas é um belo lugar para namorar.

George e Lívia saíram da loja com uma caixa de chocolates e contrataram um tour para o Parque Nacional da Terra do Fogo. No carro, o telefone de George tocou pela primeira vez desde que conheceu Lívia.

- Alô...
- ... Oi.
- ... tudo bem e você?
- ... Ainda estou aqui. Só vou embora depois de amanhã.
- ... Sim. Tudo correndo como deveria.
- ... Não, não acho boa idéia.
- ... Só um segundo. Espera um pouco. Calma. Espera.

George cobriu o fone e falou com o motorista.

- Pode encostar o carro um minuto, por favor?

O motorista encostou e George desceu do carro para falar no telefone com privacidade. Lívia ficou dentro do carro vendo George se alterar com a pessoa que estava do outro lado da linha. Ela tentou ler seus lábios, mas não conseguiu. Estranhou. De vez em quando, uma frase ou outra podia ser ouvida.

- Eu falei pra você que precisava viajar sozinho!
- ... Não. Eu não devo nenhuma explicação a você.
- ... Eu disse tudo o que ia fazer.
- ... Quando eu voltar, Li....

"Quem? Com quem ele está brigando?"

George olhava de longe para Lívia, gesticulava mostrando que não demoraria, mandava beijos, tirava o telefone do ouvido e deixava a pessoa falando sozinha. Desligou o telefone e voltou para o carro.

- Desculpa, meu anjo. Não vai mais acontecer.
- Não tem problema. Está tudo bem?
- É. Está.
- Mesmo?
- Mesmo.

O motorista seguiu viagem pela estrada colorida de vermelho, amarelo e verde. O telefone de George tocou mais cinco vezes até a estação do Parque da Terra do Fogo. Ele ignorou todas as ligações até resolver desligar o celular.

O antigo trem do Fim do Mundo costumava levar os presidiários à mata para cortar árvores e trazer de volta a madeira que foi usada para construir quase todas as casas da cidade e o próprio presídio, além de servir de lenha para as lareiras e calefações da cidade inteira quando Ushuaia era ainda cidade-presídio. George e Lívia pegaram o trem e refizeram o caminho dos prisioneiros, passando pelos campos chamados Cemitério de la Lenga - centenas, milhares de cepos de árvores cortadas que fazem uma paisagem triste e descampada.

Numa das paradas do trem, à beira do lago, George que estava quieto a um bom tempo, perguntou:

- O que você sabe de mim, Lívia?
- Hm... Que pergunta estranha...
- Então... Responde.
- Sei que você é um lindo, que eu te adoro...
- Não. Da minha vida.
- Ah... Quase nada. Sei que é ator, vi alguns de seus filmes. Adoro E.R. da sua época. Mas não sei nada. Por quê?
- Nada? Nunca leu nada?
- Eu não sou nem um pouco interessada em fofocas de celebridades. Não compro revista feminina e não vejo E!
- Nossa. Você existe?
- Acho que não. Mas porque você quer saber isso?
- Você está me dizendo que jamais foi minha fã?
- Isso te magoa, George? Hahaha!
- Deus! Isso acabou com a minha auto-estima. Então é sério? Você nem gosta do meu trabalho, não quer saber da minha existência?

Lívia soltou uma gargalhada que atraiu a atenção dos outros turistas que já olhavam demais para eles e cochichavam ao reconhecer George.

- Você não está falando sério, pelo amor de Deus?
- Não. Claro que não. Mas quando eu voltar vou precisar de uma sessão extra com o meu terapeuta.

Ela o abraçou carinhosa.

- Diz pra ele que você conheceu uma das pouquíssimas mulheres que nunca pensaram em ir pra cama com você. E ela te adora.
- Não sei se me serve de consolo.
- Hm... Mas não foi pra isso que você me fez essa pergunta. O que você está querendo me falar, George?
- Não. Nada.
- Hey. Saiba que eu não me interessava pela sua biografia. Mas hoje ela deixou de sera biografia de um astro de cinema para ser a vida de uma pessoa que eu adoro. Se você tem alguma coisa para contar, é melhor que seja já. Porque não vai ser legal descobrir coisas pelas revistas.
- Não... Não tem nada.
- George. Eu posso fazer uma greve e não falar com você por dois dias até você contar. Quer que eu comece?
- Você não teria coragem.
- Vai se arriscar?
- Você fala muito. Não conseguiria ficar calada dois dias. Eu aposto.
- Quer tentar?
- Para de bobagem. Nada de greve.
- Me dá um beijo que eu vou sentir falta. Pronto. Comecei.
- Eu não posso passar dois dias sem ouvir a sua voz.

Lívia não responde.

- Que pássaro será aquele?

Lívia continua em silêncio.

- Fala comigo?

Lívia caminhava mais à frente se fazendo de surda e rindo enquanto George andava atrás dela atirando pequenas pedras nela e cantando alto uma paródia de Lailla do Eric Clapton:

- Li-via... You got me on my knees, Lívia... Please just talk to me, Lívia?

Como nada adiantava, George resolveu apelar. Parou no meio do caminho repleto de velhinhas e turistas, abriu os braços e gritou:

- Alguém aqui fala inglês?

Dirigindo-se a uma senhora que respondeu positivamente:

- A senhora fala Inglês?
- Falo.
- Então, por favor, me ajude e peça ajuda para as suas amigas. Essa moça que está andando ali na frente não quer falar comigo. Ela pensa que eu sou uma árvore e árvores não falam. - passando o braço pelo ombro da Senhora - Será que vocês todas podem dizer pra ela que eu não tenho nada pra esconder dela, que estou apaixonado por ela e preciso muito que ela volte a falar comigo?
- Claro. Qual é o nome dela?
- Lívia.
- Mas antes me diga, tem certeza que você não está escondendo alguma coisa da menina?
- Ai meu Deus... Porque as mulheres simplesmente não podem confiar num homem honesto? Claro que não!
- Lívia, querida, venha conversar com uma Tia experiente...

Todas as senhoras do grupo cercaram Lívia e foram tentar convencê-la de que George merecia mais uma chance. Lívia dava muita risada com os argumentos delas e as caras de George olhando de longe. Até que Lívia decidiu:

- Ok. Ok. Chega. Vocês estão me deixando louca! Eu falo com ele. Juro que eu falo. Mas com uma condição.
- Aceita uma condição, George? - Perguntou de longe uma das velhinhas, toda assanhada por estar falando com George Clooney.
- Claro...Claro...Qualquer coisa.
- Ele aceita, menina. Qual é?
- Bom. Vejam bem. A condição é boa para vocês, mas se ele tentar me matar, vocês vão ter que me defender.

Todas concordaram prontamente e Lívia expôs a sua condição.

- Quando chegarmos na estação, ele vai ter que dar um autógrafo com dedicatória para cada uma de vocês.

George pôs as mãos na cabeça em sinal de desespero.

- Meu Deus, Lívia! A que ponto chega uma mulher má!
- É pegar ou largar, Mr. Clooney.
- Ok. Eu pego! Tarde de autógrafos na estação.

Lívia grita de lá:

- Autógrafos e fotos!
- Hey! Não era uma condição só? Agora são duas?
- Não não não. Está no pacote. Foto!
- Há! Você já está falando comigo!

Lívia fala para uma senhora:

- Avisa pra ele que é isso ou nada.
- George querido, ela disse que é isso ou nada.
- Ta bom.... Autógrafos e fotos! Combinado.

Todas as velhinhas pulavam e riam de alegria. Lívia se aproximou de George sorrido faceira.

- Quer apostar mais alguma coisa?

Ele a abraçou rindo.

- Não. Nunca mais duvido de você!
- Então me conta quem ligou para você no carro.
- Ah não, Lívia, não quero falar disso.
- Quer que eu comece de novo?
- Não, pelo amor de deus!
- Então me conta. Eu acho que é alguma coisa que eu tenho que saber.
- Ta bom... Tá certo. Era a minha namorada.
- QUEM?
- Ex-namorada.
- Namorada ou ex?
- Ex. Quer dizer. Parece que ela não entendeu que é ex. Mas é.

O rosto de Lívia se transformou. Toda a faceirice tornou-se pura decepção.

- Ah George..."o que você sabe sobre mim...blablabla"!
- É. Foi por isso. Eu não queria falar. Não queria que você ficasse chateada comigo me achando um cafajeste barato.
Lívia calou por alguns segundos. "Claro, que idiota, por que seria tudo perfeito e fácil?"...
- Lívia... Olha pra mim.
- Não George.
- Por favor olha pra mim.
- Ah, não quero. Pra que? Pra você me contar que quando voltar pra Los Angeles vai ficar com ela, porque é alguma relação antiga, complicada, que não acaba fácil, bla bla bla bla...não quero saber. Muito burra mesmo eu de achar que você estava comigo de verdade, eu devia ter deixado isso tudo acabar mesmo na porta do hotel em Buenos Aires, devia ter jogado esse anel pela janela, jogado você no Rio como eu disse que ia fazer.
- Para, Lívia, olha pra mim e escuta!
- Escutar o que, George? Vai me fazer mais de idiota ainda? Ou vai dizer que a gente não tem nada, que é só uma aventura de viagem, vamos aproveitar?
- Dá pra você escutar, ou vai continuar falando por mim?
- Não quero te escutar.

Ela saiu andando em direção à estação e deixou George falando sozinho. Quando ele chegou, Lívia estava dentro do carro, emburrada, chorando.

- Tenho que autografar trinta e cinco papeizinhos e tirar fotos com velhinhas... Vem me ajudar?
- Não. Vai lá exercitar a sua celebridade.
- Para Lívia. Vem comigo.
- Eu não vou com você. Quero ficar aqui sozinha que está ótimo. Vai lá. Faz o que você sabe fazer melhor, engana as velhinhas.
- Vai parar de me agredir?
- Claro que não! Vai logo. Eu quero ir embora.

O caminho de volta para o hotel foi quase fúnebre. George conversando com o motorista num spanglish lamentável. Lívia muda no banco de trás. Árvores verdes, amarelas e vermelhas passando na janela sem parar.
Na porta do hotel, George pagou o motorista enquanto Lívia subia para o quarto. No elevador de madeira, ela se olhava no espelho e pensava.

"Burra! Idiota! Anta! Você achava que tudo isso podia acontecer de graça? Claro que tinha uma namorada do outro lado da linha. Claro que pra você vai ficar só a historinha pra contar pras vizinhas enquanto seu marido barrigudo ronca no sofá da sala. Burra!"

George entrou no quarto, largou a mochila em cima da poltrona, tirou os sapatos, sentou-se ao lado de Lívia na cama.

- Quer que eu ajoelhe e peça perdão?
- Quero que você exploda, George.
- Não quer não.
- Quero sim.
- Mas eu não quero explodir antes de explicar tudo pra você.
- Explicar o que? Que você tem uma namorada?
- Fica quieta e me deixa explicar. Não fala de novo por mim. Você é péssima em adivinhar o que eu vou falar.
- Fala, George. Vai. Me enrola.
- Eu não quero enrolar você. Eu tinha essa namorada. Já faz algum tempo que a gente está junto.
- "Eu tinha" e "a gente está" é erro de concordância. São dois tempos diferentes. Você tem que decidir se é passado ou presente pra poder me convencer de alguma coisa.
- Tá. A gente estava!
- Sei.
- Dias antes de viajar, eu conversei com ela. Disse que não estava feliz, que precisava ficar sozinho. Ela concordou. Eu disse que ia viajar. Ela não se opôs a nada. Eu achei que ela tivesse entendido o que eu quis dizer com querer ficar sozinho.
- Porque você não tentou usar as palavras "BREAK UP"?
- Porque achei que não precisava.
- Não precisava terminar?
- Não. Não precisava ser tão específico. Achei que ela tinha entendido. Mas ela ligou hoje toda "namorada", perguntando quando eu volto, dizendo que vinha me encontrar porque tá com saudade, que eu devo uma satisfação. Eu disse que não quero. Que ela não entendeu nada.
- Porque você me trata como sua namorada, se ainda está todo enrolado com ela?
- Porque você é minha namorada e eu não estou tão enrolado. É só uma questão de sentar e arrumar isso.
- Ai ai...
- O que foi?
- É melhor a gente voltar a ficar junto só depois que você arrumar isso.
- Como assim, Lívia, tá louca?
- Não.
- Você está aqui comigo!
- Isso se resolve.
- Lívia, não seja boba... Eu te adoro, nós estamos juntos num dos lugares mais lindos do mundo... Não vamos jogar nada fora por causa de uma relação que já acabou.
- Já acabou mas um dos lados não faz idéia disso.
- Um dos lados está se fazendo de bobo.
- É. O SEU lado.
- Não! Ela. Ah... Por favor... Você não vai fazer isso.
- Sei lá o que eu vou fazer, George. Vou dar uma volta.
- Eu vou junto.
- Não. Você fica. Eu preciso ficar sozinha e você entende bem essa frase. Então fica aqui.

Lívia pegou a bolsa e saiu. Passou muitas horas andando a pé pela cidade e pela orla, sentando-se em praças, sentindo frio, comendo chocolate e pensando no que fazer. Voltou para o hotel quando já era noite, George estava no restaurante jantando sozinho e dando incansáveis autógrafos. Ela foi direto para o quarto, deitou-se e dormiu. No meio da noite, Lívia escutou George entrando, nas pontas dos pés, evitando fazer barulho. Ele tirou a roupa em silêncio e deitou-se ao lado dela. Ela fingia que dormia quando ele se acomodou puxando-a para perto, enroscou suas penas nas dela, abraçou-a encaixando seu corpo e beijou seu olho. Embora tentasse, ela não conseguia segurar as lágrimas que escapavam dos olhos. George beijou seu rosto, beijou suas lágrimas, beijou sua boca e mais lágrimas. Ele sussurrava em seu ouvido:

- Desculpa, desculpa, desculpa, desculpa, desculpa... Eu não queria te deixar triste.... Eu te amo... Me perdoa...

Entre lágrimas escondidas e sussurros de perdão, George e Lívia fizeram um amor silencioso, desesperado, triste, como se fosse a última vez.
...

Dez horas da manhã. O sol batia na janela enorme do apartamento de frente para o Canal de Beagle e de costas para a geleira eterna. George acordou preguiçoso e feliz por ter feito as pazes com a sua Lívia. Levantou e foi procurar por ela no banheiro para dar bom dia, mas ela não estava. Pensou que ela podia ter descido para tomar café e começou a se vestir de qualquer jeito para descer, pegou seu relógio na mesa de cabeceira, pensava em sair, quando percebeu que havia algo além do relógio em cima da mesa. Voltou para confirmar e viu o que não queria: o anel de escaravelho havia saído do dedo de Lívia e repousava sobre um envelope do Hotel El Glaciar. No envelope, seu nome escrito com caneta vermelha.

"George,

Estou voltando para o Brasil no vôo das 9 a.m.
Minha viagem foi maravilhosa. Conhecer você foi maravilhoso. Tudo o que fizemos, falamos, vivemos, foi maravilhoso. Mas não foi totalmente verdadeiro da sua parte.
E não o será enquanto a sua vida não estiver resolvida.
Me perdoa por sair sem me despedir, mas eu não seria capaz.
Estou triste. Muito triste.
Adoraria que este anel voltasse para o meu dedo.(que seu coração voltasse para a minha mão), mas só vai ser possível se tudo for de verdade. Se você estiver nele inteiro.

Um beijo com saudades,
Lívia”


VII
Este capítulo foi escrito pelo meu amigo amado, em sinal de protesto pela minha preguiça - colaboração e empurrãozinho para que eu continue a saga de George e Lívia.
Texto de Felipe Belão Iubel com interferências de Mercedes Gameiro.

(Tempo)

Com o anel de Lívia na mão, George ficou sentado. Olhava desolado para a parede do Hotel. Parecia sem reação. Seu cérebro dava tantas voltas quanto seu estômago. Questionava toda sua vida. Questionava sua carreira. Questionava tudo.

Deitou no chão. Tudo parecia mais claro dali. Então, conseguiu enxergar a grande vilã de toda a história. Não se tratava da mulher que aparentemente se apossou de seu coração. Não se tratava de sua ex-namorada em Los Angeles. Era ela, sua própria carreira, a responsável por tudo. Afinal, se não fosse por sua fama e por seus filmes, as fofocas e especulações não chegariam aos ouvidos de Lívia e ele jamais teria perdido aquele amor que já nasceu cheio de lendas, histórias e fantasias.

Foi então que, com grande tristeza e com uma ousadia típica dos corações desesperados, ele se imaginou outra vez dirigindo um filme. Sentiu seus dedos tocando a câmera. Sua voz ecoando pelo cenário. Seus personagens tomando forma. Os atores e atrizes criando um mundo sob seu comando.

E, anos após a bem sucedida empreitada de "Confissões de Uma Mente Perigosa", seu primeiro filme, sentiu que chegara a hora de voltar à direção. Foi nesse exato momento que dois grandes roteiros vieram instantaneamente à tona. Dois roteiros que futuramente o ajudariam a reencontrar seu caminho na indústria cinematográfica americana e mundial.

No chão de um quarto de hotel, com um anel na mão e o com o coração em frangalhos, nasceram dois filmes que fariam o nome de George Clooney brilhar na festa do Oscar.

"Boa Noite e Boa Sorte" veio primeiro. Sempre segurando o anel de Lívia, ele quase derrubou o diretor da Warner Independent Movies quando anunciou que filmaria tudo em preto e branco. Com uma direção de fotografia das mais belas de todos os tempos e direção de elenco impecável, ele revolucionou. Levou a todos um excelente drama sobre a era McCarthy nos EUA. E recebeu em troca aplausos e prêmios em festivais pelo mundo.

- No surprise, no pleasure, no satisfaction. - ele dizia.

Alguns julgavam que a frase indicava que todo seu talento como ator e toda sua habilidade como diretor começavam a refletir na sua atitude. Notícias e mais notícias. Fofocas e mais fofocas. Elogios e mais elogios. Jornais divulgavam que o eterno médico e bom moço de E.R. atingira o ponto alto de sua carreira.

Sempre com o anel na mão, George só sorriu quando leu que uma grande revista americana o rotulava como o grande defensor do cinema anti-stablishment e atribuía a ele o título de "homem mais perigoso em Hollywood".

Foi assim que George atingiu a maturidade profissional como diretor e ator. Cheio de melancolia e tristeza. Sentimentos que tão mal faziam à sua vida e tão bem se encaixavam na hora de se concentrar no trabalho.

E foi assim. Permaneceu pensativo e calado enquanto filmava o thriller sobre as intrigas e corrupção no mundo de negócios do petróleo, "Syriana". A crítica o aclamava. A saudade de Lívia o aplacava. E George frequentemente era visto sentado no chão, com um anel "estranho" na mão.

- No surprise, no pleasure, no satisfaction. - ele continuava dizendo.

Mais prêmios. Mais indicação ao Oscar. Desta vez concorrendo como melhor ator coadjuvante por sua interpretação em Syriana. Mais assédio da imprensa. Mais badalação. Porém, só havia vida na lembrança daqueles dias que passara com Lívia. Dias que guardava no canto mais precioso de sua memória. O frio terminava na Califórnia quando os dias de Oscar se aproximavam. Festas, noites de gala e dias que amanhecem vazios. O vento constante que vem do mar parecia trazer mais lembranças. Nestes dias, o vento era o único consolo de George. Ele pensava nos prêmios com descaso e já tinha planos para eles: "Excelentes pesos para segurar as portas. Assim o vento pode entrar na minha casa trazendo a única coisa que realmente importa."

No surprise, no pleasure, no satisfaction.

VIII

(O Diário de Maria Amélia)


Jan 5th 2006:
Liguei pra Lívia

- Alô
- Oi melequenta! Acordou?
- To no banho, Mélia. Tentando desmelecar. Hahahah
- Que nojo...
- Me liga depois?
- Não. Preciso falar agora. Tô com saudade.
- Mélia, eu to pelada, com frio, molhando o banheiro e o celular.
- Então pega a toalha e se enxuga. Mas eu não vou desligar.
- Meu, como você é chata!
- Anda, véia! E não desliga!
- Ta. Espera aí.
- Põe no viva voz que eu canto pra você enquanto isso.
- Hahaha! Como é que você pode ser assim às sete da manhã? Vai falando que eu sei me enxugar com uma mão só.
- Nossa! Você podia ficar rica com essa habilidade...
- Fala logo!
- Olha só. Hoje à noite a gente vai sair.
- Ah vai? Quem disse?
- Eu. Chega Lívia. Você vai tirar o luto hoje à noite. Está aberta a temporada de caça.
- Ah claro. Você quer dizer que a gente vai sair pra eu ficar vendo o resultado da sua caçada?
- Não Lívia! Hoje eu faço você beijar na boca, nem que tenha que te bater.
- Maria Amélia, presta atenção: eu não to precisando beijar na boca, não vou com você, e você vai me ligar só mais tarde porque agora eu tenho que tomar banho.
- Não.... Não ta precisando beijar na boca... Lívia! Já faz três meses que você voltou daquela viagem. Você não conheceu mais ninguém e ficou uma neurótica trancada em casa.
- Tá ótimo pra mim, Mélia. Dá pra você entender?
- Não. É claro que não dá pra entender. E eu não vou deixar você passar mais um fim de semana achando que ir de casa pro trabalho é tudo o que existe na vida.
- Tá bom, Mélia. Tá. Então à noite a gente se fala.
- O que? Topou??
- Topei.
- Jura?
- Não!
- Lívia! Para! Eu vou fazer plantão na porta da sua casa. Chega disso, tá bom? Vamos sair sim.
- Tá. Um beijo
- Hey. Você viu a lista dos indicados?
- Viu porque eu não falo com ninguém?
- Será que ele ganha?
- Ah tomara... Assim a história que eu vou contar pras minhas amigas de bob no cabelo daqui há 20 anos fica mais emocionante. Mélia! Dá pra parar de querer me dar notícias desse cara? Eu já te disse, foi um casinho sem importância, eu tô pouco me lixando se ele vai ganhar um Oscar, um Quiquito ou um prêmio de quermesse. Eu quero que ele exploda!
- Ah... Só um casinho... Então será que dá pra me explicar porque você não consegue levar uma vida decente desde que voltou da Argentina?
- A minha vida sempre foi assim.
- É... Eu dormi os últimos 10 anos, por isso eu esqueci como era a sua vida. Desculpa.
- Você me ligou às 7 da manhã pra falar disso?
- Claro. Você nunca me contou o que aconteceu.
- Não contei porque não tem o que contar. E antes que eu me esqueça, vai catar coquinho!
- Que educada. Porque não me manda a merda direito?
- Porque não precisa. Você entendeu. Beijo.
- Beijo. Te vejo de noite.
- In your dreams.
- Lívia, eu vou tomar uma atitude.
- Boa sorte, Mélia.

Jan 5th: Fui à noite pra casa da Lívia e ela não me atendeu. O porteiro disse que ela estava lá, mas não atendia o interfone. Não era a primeira vez que ela fazia isso comigo. Eu subi, espanquei a porta e ela não abriu. Liguei no celular dela. Você acredita que eu ouvia o celular vibrando em cima da mesa da sala? O prédio inteiro estava vibrando e ela não atendia a droga do telefone. Eu morri de gritar na porta dizendo que sabia que ela estava em casa, mas não adiantou. Até o vizinho apareceu. Aliás! Acho que eu vou me mudar pra casa da Lívia. Gatinho...! Ele só não foi muito educado, mas imagina... Não ser educado comigo... Ele abriu a porta super fino: "Puta que pariu que merda é essa?" .

Eu olhei pra ele com o meu olhar Super-Mélia-with-lasers e ele já afinou a vozinha. Há!
Eu pedi desculpas super meiga. Falei que achava que a minha amiga não estava legal e fiquei nervosa, nossa, como eu sou fragilzinha! Rapidinho ele estava miando.
Me convidou pra ver o apartamento dela pela sacada dele. Ah que pena... Tive que entrar na casa do gatinho.
Daí desisti da Lívia. E de sair. Ele estava vendo Kill Bill, eu comentei o filme, acabei sentada tomando vinho e vendo o filme com ele. Hahahah! Como eu amo essa minha vida! Só mandei uma mensagem no celular da Lívia dizendo:

"Tudo bem. Você venceu dessa vez, mas quem ganhou fui eu. Seu vizinho é um gostoso. Obrigada, amiga. Beijo"

Jan 6th 2006: Acho que agora chega.
Dona Lívia está dando trabalho demais. Vou dar um jeito de falar com o George. Eu queria pegar o telefone do George no celular dela, mas acho até que ela deletou. Então, resolvi fazer uma pesquisona na Internet. "Procura-se George desesperadamente". Entrei em todos os sites de fã-clube e das produtoras relacionadas a ele. Anotei milhares de e-mails. Escrevi um e-mail só e distribui para todos os endereços que anotei. Sei que vai ser difícil, mas alguém vai acabar respondendo alguma coisa. Tempo pra esperar é o que eu mais tenho.

De:
mailto:melia_linda@hotmail.com
Para: lista_toda

Caro George,

Você provavelmente não lembra de mim. Sou amiga da Lívia - aquela garota que você conheceu em Buenos Aires. Nos falamos no telefone uma vez, lembra? Bom... Muito chato isso que eu estou fazendo, mas acho que é mais do que necessário. A Lívia voltou para o Brasil muito triste. Não sei o que aconteceu porque ela se recusa a contar. O fato é que desde então ela está triste quieta e diferente. Ela era alegre e deixou de ser. Não consigo tirá-la de casa, não consigo nem levá-la ao cinema. Os pais dela estão preocupados. Ela saiu de casa e foi morar sozinha e a gente sabe que foi para não ficar dando explicações. Mudou de emprego, não tem amigos, mudou o celular, mudou até a maneira de falar comigo. Ninguém sabe direito o que acontece na vida dela. Tudo virou um mistério. Será que você pode me contar o que aconteceu na Argentina pra eu tentar entender, e descobrir como ajudar a minha amiga? Vocês fizeram algum pacto de fidelidade eterna? Você proibiu a Lívia de viver na sua ausência? O que acontece, George? Você tem falado com ela? Ela diz que não fala com você, que não tem mais o seu celular, diz que não quer nem ouvir o seu nome, mas eu acho que é mentira.

Por favor, me dá uma luz. Eu não entendo o que está acontecendo, mas entendo que a minha melhor amiga não está feliz. Alguma coisa não está funcionando.

Me escreve , por favor.

Obrigada,
Maria Amélia.

Jan 12 2006: Tenho tentando falar com a Lívia, mas agora ela não me atende nem no celular. O que será que está passando na cabecinha dela? Eu tô morrendo de pena, mas ela não se deixa ajudar. Ela não entra online, não usa o celular, não telefona pra ninguém. Voltou pra idade da pedra. Que coisa difícil!
Nooooossa! Não acredito no que aconteceu hoje!
Na hora que entrei na net fiquei feliz demais. Parece que estou mais perto de Mr. Clooney agora. Na verdade, fiquei com vergonha! Achei que o e-mail era dele:
gc@clooneypic.com. Oras! Que burra! Você acha que um cara com a importância dele ia deixar o e-mail dando sopa na Internet? Anta!
Isso foi o que eu recebi. Agora é só esperar pra ver se ele responde.

x.x.x.x

De: gc@clooneypic.com
Para:
mailto:melia_linda@hotmail.com

Cara Maria Amélia.

Encaminhei seu e-mail para o Senhor Clooney.
Não diga a ele que eu falei isso, mas ele foi acometido da mesma doença que esta sua amiga. Será a água da Argentina?
Ele está irreconhecível. A tristeza dele é indisfarçável. George é um amigo querido. Conte comigo para solucionar este assunto, porque eu também quero saber o que houve.
Se eu puder ajudar, me avise.

Gina Carlson

x.x.x.x.x

De: meliameliamelia@hotmail.com
Para:
gc@clooneypic.com

Gina,

Fiquei surpresa com o seu e-mail. Não posso entender o que terá acontecido com os dois para estarem assim. Não sei se foi a água ou um vírus transmitido por lobos marinhos da Patagônia! Haha! Tadinhos.
Estou rezando para o George se manifestar. Alguém precisa tirar a minha amiga desse buraco onde ela resolveu viver.
Obrigada por me responder,
Beijo
Maria Amélia


Jan 20th 2006: Já faz tempo que a Gina mandou o meu e-mail para o George. Alguma coisa me dizia que ele nunca ia dar as caras. Eu achava que ele não estava nem aí para o estado da Lívia. A essa altura, eu já sou a melhor amiga virtual da Gina. Ela é o máximo. Divertida demais! Adoro as histórias dela e ela é impressionantemente atenciosa. Nos falamos todos os dias.
Outra pessoa com quem falo todos os dias é o Fábio, vizinho da Lívia. Não consegui mais ver a minha amiga, mas tenho ido com uma certa freqüência ao prédio dela. Hhehehe. Ele é um amorzinho...a gente está ficando desde aquele dia que eu quase coloquei a porta dela abaixo.
Mas então... Foi quando eu já estava achando que o George era mesmo um ass, que isso chegou:

De:
goodluck@clooneypic.com
Para:
meliameliamelia@hotmail.com

Amélia,

Como eu esqueceria a pessoa que praticamente salvou a minha viagem a Buenos Aires?
É claro que não esqueci de você.
O que você disse que está acontecendo com a Lívia é bastante parecido com o que acontece comigo. Estou só trabalhando e não tenho vontade para mais nada.
Não temos nenhum pacto. Quem me dera um. Apenas ela não acreditou em mim e me deixou sozinho na Patagônia. Ela não te contou?

Eu recebi uma ligação de uma ex-namorada e a Lívia não acreditou que fosse mesmo ex. Ela foi embora, deixando um bilhete dizendo para procurá-la quando resolvesse minhas pendências. Eu fiz isso, Quando voltei pra Los Angeles esclareci tudo com a minha ex. Você pode ler isso nas revistas e jornais da época: Eu não tenho mais nada com a Lisa.

Mas quando procurei pela Lívia para dizer que resolvi tudo, não consegui falar com ela. Mandei vários e-mails para a conta que ela prometeu criar, liguei para o celular dela, para a mãe dela, mas foi impossível localizá-la. Achei óbvio que ela não me quisesse mais e desisti.

Por isso é difícil acreditar que eu seja a razão da tristeza da sua amiga, Amélia.

Será que houve algum outro mal entendido nesta historia? Tudo o que você me contou é coisa de quem está sofrendo. Tenta saber mais, Amélia. Eu fui muito mal interpretado e talvez esteja sendo até hoje. Talvez seja bom investigar um pouco mais antes de desistir completamente, não é? Você acha que eu devo alimentar alguma esperança?

De qualquer forma, foi bom ter notícias suas.
Diga a Lívia que eu tenho uma coisa que pertence a ela. Um anel do qual não me separo. Mas sonho com o dia de vê-lo na mão certa.

Se você achar que eu devo fazer alguma coisa, por favor me avise.

Seu amigo,
George

Meu Deus! Ele respondeu! Fiquei sem entender nada de uma vez! Mas pelo menos ele respondeu! Então foi ela que brigou com ele? Não! A Lívia pensou de novo como "Lívia" e fez bobagem. Que mania de ser certinha! Como é que ela larga o cara sozinho lá? Eu teria grudado nele até ele largar a outra. Imagina! Típico da Lívia!
Eu tenho um plano: já que ela não me atende, vou fazer uma visita para o meu gatinho Fábio. Vou ligar pra ele e me convidar pra ver um filme. Eu imprimo o e-mail do George, coloco por debaixo da porta com uma observação: "Se quiser falar sobre isso, estou no apartamento ao lado". E fico lá com o meu gatinho.

Se ela ler o e-mail, pelo menos vai saber que ele pensa nela.

***


NA CASA DO VIZINHO:

A TV estava ligada com uma grande tela azul. O filme já havia acabado, mas Mélia e Fábio não tinham percebido. Em volta do sofá, as peças de roupa dançavam num balé desengonçado. Ela era mais bonita nua do que vestida (é o que costuma acontecer com as mais cheinhas). Fábio se perdia nas curvas de Mélia, com o ímpeto de um menino, quando um som chato e insistente entrava pelos ouvidos dos dois, destrambelhando o ritmo dos corpos. Ele tateou o chão numa exploração desesperada para encontrar o controle remoto, e desligou a TV para acabar com o som que insistia em continuar. Mélia sentou no sofá reclamando:

- Ai que chato isso! Parece um martelo!

Só então os dois perceberam que alguém estava batendo na porta.
Fábio e Mélia se vestiram rápido, como se estivessem fazendo alguma coisa escondido. Fábio abriu a porta sem camisa, abotoando o jeans.
- Oi. A Mélia está aí?
- Oi. Você que é minha vizinha?
- Sou. Ela tá aí?
- Tá, entra. Não repara a bagunça.
- Acho que atrapalhei alguma coisa, né?
- Hm... Não mais importante do que o que vai acontecer agora, eu acho.

Mélia veio do banheiro e sorrindo receber a amiga.

- Ai! Que bom ver você... Me dá um abraço!

Lívia se pendurou no pescoço de Mélia com o e-mail na mão e chorou.
- O que foi, Li... Não chora... Eu quero tanto te ver feliz de novo...
- Ah Mélia. Tá tão difícil isso!
- Tá difícil porque você não divide o teu sofrimento com ninguém. Ninguém mais agüenta te ver sofrer sozinha. Me conta o que aconteceu?
- Isso. - mostrando o e-mail - o que ele já te contou. Eu não acreditei nele, Mélia. Ele me pediu tanto pra acreditar e eu não acreditei. Porque que eu sou assim? Depois, ele demorou muito pra me ligar. Eu me senti traída, trocada. Não quis contar pra ninguém o que aconteceu.
- Mas nem pra mim?
- Eu fiquei com vergonha, me senti ridícula. "Quem sou eu pra ficar com um mega astro de Hollywood? Viu só? Ele me usou!" Todo mundo ia comentar. Eu não queria. Preferi que ninguém soubesse de nada. Foi tão ruim...
- Quem ia rir de você, Lívia? Você é cruel demais com você mesma.
- Eu sei. Mas tenho medo de parecer idiota.
- Porque você não atendeu quando ele ligou?
- Eu deletei o número dele.
- Porque?
- Pra eu não ligar. Se o número estivesse ali eu teria ligado. Depois eu troquei de celular e perdi a agenda.
- Que coisa, Lívia... E agora?
- Eu ia perguntar isso pra você. O que que eu faço?
- Calma... E o e-mail? Você não abriu a conta de e-mail? Aliás, porque não deu o e-mail normal pra ele?
- Porque no dia que eu prometi isso, eu nem queria nada com ele. Foi na primeira noite. Eu não deixei ele subir, lembra? Falei que abriria essa conta e nunca mais falamos nisso. Eu pensei em abrir, mas fiquei com medo.
- De que?
- Que ele nunca escrevesse e eu ficasse esperando, sofrendo, olhando pro computador.

Lívia se pendurou novamente nos ombros de Mélia e chorou feito criança.

- Ah... Minha amiga... Chega disso agora. Vocês dois estão sofrendo. Vamos dar um jeito isso?
- Como?
- Você vai mandar um e-mail pra ele. Hoje. O endereço está aí no papel que eu te dei.
- O que eu digo?
- A verdade.
- Como?
- Hm... Meu amor, chego amanhã às dez. Estou de lingerie de oncinha! Me encontre no banheiro das mulheres. Com amor, Lívia.
- Hahah! Cala a boca, Mélia!

Jan 20th 2006:
De:
Livianoone@hotmail.com
Para:
goodluck@clooneypic.com

Dear Mr. No One

Estive perdida num poço escuro de intransigência e enganos.
Esta noite a Mélia mandou uma corda para me resgatar. Por favor, me ajude a usar esta corda para voltar à superfície e me atar a você.

Espero que você me responda (e me perdoe).

Beijos com muita saudade,

Lívia

x.x.x.x
Jan 21st 2006:

De: goodluck@clooneypic.com
Para:
Livianoone@hotmail.com


Dear Mrs. No one.

Você tem uma coisa que é minha.
Estou indo buscar.

Love,
George

x.x.x.x

De: Livianoone@hotmail.com
Para:
goodluck@clooneypic.com

Devolve o meu anel.
Vem logo.

Love,
Lívia

x.x.x.x

Jan 22nd 2006:

De:
meliameliamelia@hotmail.com
Para:
Livianoone@hotmail.com, goodluck@clooneypic.com


Queridos No Ones,

Chega de enrolação!
George: você tem 24horas para chegar.
Lívia: to passando aí pra gente ir ao salão (Você está um caco amiga! Ninguém merece).

Beijo
Mélia.

P.S. Ah! Comprei a sua lingerie de oncinha.

THE END?